Desventuras em série - Capítulo II
Entrando Numa Fria
Coloco a cabeça para fora dos cobertores, que frio! Ainda está tudo muito escuro para enxergar os ponteiros do meu relógio, que horas devem ser? Tenho que conseguir alcançar o celular sem me mover muito... pronto! Aqui está... dez horas. Deveria me levantar agora, afinal já estou há 15 dias em salamanca e tenho muito o que fazer: comprovante de matrícula, conta em banco, d.n.i, empadronamiento, tudo continuamente adiado. Coragem para a luta! Vamos levantar. 1, 2, 3 e... já! Levante os cobertores!!! Vamos corpo, obedeça as ordens do meu cérebro! Inútil...
Bom, acho que vou ficar mais um pouquinho aqui, só mais uma horinha, se me levanto às onze ainda dá tempo de resolver alguma coisa...
E novamente, depois de uma luta titânica entre a minha força de vontade e o frio (na qual sempre vence o segundo) acabo por me levantar às duas quando, de acordo com o incrível estilo de vida espanhol, já não posso fazer mais nada que dependa de bancos ou de órgãos públicos (queria ser funcionária pública na Espanha!!!), ou seja. Outro dia perdido!!!
Como as pessoas podem viver assim??? Com esse frio que congela até os ossos! E o pior, dentro de nossa própria casa?! Vocês não tem noção do que é ser obrigada a andar o dia inteiro parecendo uma esquimó dentro de casa. Ter medo de colocar a cabeça pra fora dos cobertores e perder com isso preciosas horas até se decidir por despertar...
Pois é amigos, tudo que é bom dura pouco, pouquíssimo!!!! Meu simpático apartamento em Salamanca, com meus simpáticos companheiros de piso começa a transformar-se em um pesadelo gelado. Literalmente, entrei numa fria! Por falta de opção e de coragem de mover-nos passamos quase todo o dia jogando cartas ao redor da mesa, único lugar quente da casa graças a uma estufa que se encontra estrategicamente posta embaixo! A estas alturas vocês já devem ter percebido que não temos calefação. Ou melhor, temos uns aparatos por aqui que chamam de calefação, mas que não nos servem de nada, a não ser que optemos por gastar uma pequena fortuna todo mês em gás butano! Oh! Não tenho palavras para descrever como têm sido emocionantes e agitados esses meus primeiros dias em Salamanca!
E para completar, ainda não temos o ultimo companheiro necessário para formar o nosso quarteto fantástico, sem o qual provavelmente seremos despejados por falta de pagamento...! Assim, empenhados em nossa missão de encontrar mais um felizardo para compartilhar o frio conosco, unimos nossas forças, colocamos as nossas melhores roupas (todas as mais quentes que temos) e pusemos nossas lindas caras na rua para distribuir o máximo de cartazes possível. E voltamos correndo para o aconchegante calor da estufa!
Depois de alguns dias de espera, um pedreiro de quarenta anos que ainda mora com os pais, um rastafari que tinha um cachorro e uma garota que já tinha apartamento mas nos chamou porque “queria fazer amigos” eis que aparece Jesus, o nosso salvador!
Devo dizer que Jesus se parece muito com o do cinema (que me perdoem todas as teorias que acusam os filmes bíblicos de recistas). Para mim, ele surgiu na pele de um bonito garoto loiro, olhos azuis, 22 anos, falante e amigável! Devo admitir que um pouco mais baixo e com cabelos curtos, mas ninguém é perfeito não é mesmo?
Após a milagrosa aparição de Jesus, que se instalou no menor quarto da casa, dando o bom exemplo de abnegação e humildade (vamos ignorar o detalhe de que era o único quarto vago...), só me restavam dois desafios: vencer o frio e encontrar um emprego, qual dos dois eu conseguiria resolver primeiro? Descobriremos no próximo capítulo!